Como diz o bom meme, ao contrário do que muitos pensam, as pessoas LGBT+ não nasceram com o lançamento do disco Born This Way (2011), da cantora Lady Gaga. Essa parcela da população existe desde que o mundo é mundo, tanto na raça humana¹ quanto em expressões entre os animais². Portanto, discursos como “na minha época isso não existia” ou “isso não é natural” não possuem fundamento e são facilmente refutados. Isso demonstra apenas o preconceito existente, que é transmitido e disseminado todos os dias, por todos os lugares. No entanto, esse é um problema que, com o tempo, vem saindo do ambiente social para o ficcional.
Já se tornou comum que as diversas formas de veículos da cultura pop, sejam séries, quadrinhos, livros, games, etc, coloquem em suas histórias personagens que pertençam à comunidade LGBT+. Essa é uma forma importante para inserir uma parcela da sociedade que constantemente foi invisibilizada pelas mídias, mas que agora têm o seu espaço garantido, apesar de muita coisa precisar melhorar ainda.
Porém, essa inserção de personagens LGBT+ nas histórias tem sido motivo de incômodo para muitas pessoas, que não se conformam com o fato de haver um personagem que não se adeque ao que costumeiramente é levado ao público. Quando há a inserção de um personagem gay, por exemplo, ou que apenas dê indícios de que possui algum relacionamento homoafetivo, grande parte da comunidade que consome aquele produto se retrai e dissemina seu ódio e inconformação que, em meio a um ENORME número de personagens considerados “normais” por eles, haja um que não se adeque aos seus padrões. Um bom exemplo disso, e que ilustra muito bem a questão, foi a recente revelação da história por trás de Varus, campeão de League Of Legends que nunca teve tanta fama entre os jogadores no geral, mas que ganhou os holofotes após a revelação do seu passado. Em um aprofundamento da história por trás do personagem, divulgado por meio de um cinematic³ do jogo, descobrimos que Varus é na verdade a junção de três seres: dois humanos e um Darkin, sendo os humanos dois homens que eram apaixonados em épocas remotas e que foram unidos à entidade Darkin após batalhas de guerra. Instantaneamente após a revelação dessa história, uma parte da comunidade do jogo iniciou um ataque aos desenvolvedores, com comentários agressivos e que disseminavam ódio. Um deles, visto por esse que vos fala, era alguém comentando que “haviam estragado o jogo” e um personagem do qual gostava tanto de jogar. Outros argumentos ainda a respeito de Varus eram de que a Riot Games, desenvolvedora do jogo, estava “forçando” em colocar um “personagem gay” na história. Mas a pergunta é: por quê? Não houve nenhum tipo de alteração na jogabilidade do personagem, apenas uma modificação do seu passado. A questão principal nesse incômodo é o fato de, além do preconceito característico, haver o medo do que não se conhece ou se evita conhecer.


Um exemplo mais recente e que foi revivido há alguns dias, foi com relação ao jogo The Last of Us. O jogo, desenvolvido pela Naughty Dog, é um sucesso de público e crítica. Desde o lançamento da DLC do game, Left Behind, os jogadores ficaram sabendo que Ellie, uma das protagonistas, teria uma relação sentimental muito profunda com sua amiga, Riley. A partir daí, soube-se que a garota possuía sentimentos homoafetivos, o que foi motivo de comemoração e emoção para alguns, e ódio e desconforto para outros. Apesar de ser um dos jogos mais aclamados de sua geração, a questão da sexualidade de Ellie fez com que muitos jogadores comentassem nas redes sociais que iriam desistir do jogo ou que a agora ele não prestava mais. Essa discussão teve seu início desde o começo do jogo, em 2013, e trouxe o debate para dentro da comunidade, tanto entre os players e quem nunca havia jogado. Porém, recentemente tivemos a E3, feira de games que tem como objetivo dar espaço para os desenvolvedores de jogos para que mostrem suas novidades. Durante os dias de evento, o público finalmente foi apresentado ao trailer da segunda parte do game, que vem sendo esperada há muito tempo e que mobilizou as atenções de jogadores do mundo todo. No entanto, o que deveria ser um momento de grandes expectativas, gerou muita frustração por uma parte dos fãs. O motivo? Algo óbvio e que, como foi citado, já havia sido mostrado há muito tempo, nos primórdios do jogo: a sexualidade de Ellie. Em uma cena de início, Ellie é mostrada, já bem mais velha, dançando com outra mulher, beijando-a em seguida. Apesar de toda magnitude do trailer, mostrando cenas incríveis e em seguida uma gameplay descrita como excepcional pelos jogadores, o foco de toda crítica por uma parte da comunidade foi a cena do beijo entre Ellie e sua parceira.


E não é apenas a sexualidade dos personagens que gera esse transtorno todo na comunidade gamer. Durante muito tempo, a maioria das personagens femininas dos games, principalmente de MOBA e MMORPG, eram descritas e representadas com corpos sempre torneados, com grandes curvas, partes do corpo até desproporcionais ao que realmente um ser humano poderia possuir. Essa sempre foi a imagem feminina nos jogos: algum tipo de fetiche masculino para que se fantasiasse, o que gerava uma imagem deturpada de modificada do que era realmente ser mulher nos jogos. Um exemplo disso é a famosa Lara Croft, protagonista dos jogos da franquia Tomb Raider. Desde o início, Lara foi vendida para o público como um símbolo sexual – principalmente ao colocar Angelina Jolie, símbolo sexual da época, no papel da protagonista na adaptação cinematográfica do jogo. No entanto, a partir do lançamento do jogo de 2013, a imagem de Lara foi mudada, sendo retirado o estereótipo clássico de mulheres nos jogos e se adequando à verdadeira natureza da personagem. Porém, o fato dela finalmente apresentar a imagem de uma mulher que se aventura, que passa por todas as intempéries em suas viagens, desafios e não aparenta estar saindo para uma festa, fez com que a comunidade ficasse nervosa, reclamando da atual aparência dela e, novamente, comentando que estragaram a personagem.


Faremos um breve retorno a League Of Legends; a mesma situação ocorreu durante o lançamento da campeã Taliyah, em 2016. A jovem, vinda das desertas e escaldantes terras de Shurima, possuía uma aparência diferente do que era visto em outras personagens como Miss Fortune e Ahri: ela não era branca, tinha roupas largas e pesadas e possuía feições mais rudes, como nariz adunco e sobrancelhas grossas. Esse fato foi responsável por um alvoroço em parte da comunidade, que não aprovou a aparência da nova personagem e a caracterizaram como “feia” para o jogo.

 

Mas o que tudo isso nos mostra?

O mundo dos jogos eletrônicos, assim como todos os espaços, sempre foram dominados, em sua maioria, por homens heterossexuais brancos. Esse tipo de público sempre foi representado nas diversas áreas da cultura pop, assim como nos games. Sempre foi comum se deparar com personagens masculinos, fortes e desbravadores, características que sempre levavam certo reconhecimento com seu público. Apesar desse perfil de jogadores ter sido maioria em uma época, isso vem mudando com o tempo. No entanto, mesmo com uma vasta representação das maiorias, esse público ainda se incomoda quando um pequeno espaço é reservado para aqueles que não se sentem representados nas várias mídias. Isso desencadeia uma onda de reclamações e incômodos que, se analisados a fundo, não fazem sentido, visto que os próprios gamers já fizeram parte de um recorte social oprimido e discriminado. Ainda hoje é comum que se ouçam coisas como “quadrinhos/vídeo game/animes” são coisas de criança, ou “coisa de desocupado’’. Esse estigma social é carregado há décadas, mesmo que os anos e a “evolução” da sociedade faça com que esses conceitos não sejam mais predominantes. Mas o que se deve ficar atento é que, até mesmo aqueles que ainda sofrem com esse tipo de preconceito, oprimem grupos dentro do âmbito dos jogos eletrônicos.

Como se não bastasse todo o ódio e violência que se tem no mundo, as pessoas são obrigadas a passar por isso até em lugares que servem como um tipo de refúgio para os problemas da vida. Desde sempre os games servem como um mundo paralelo em que se pode viver outra vida de forma tranquila, divertida e pacífica… ou pelo menos deveria ser assim. O ódio da vida real transpôs o espaço do real para ser inserido no mundo ficcional dos games. Se a intenção em jogar era concluir quests, derrotar dragões, matar zumbis e desbravar mundos, quanto mais o tempo passa, mais esses objetivos são mesclados às diversas batalhas da vida real. Questões como LGBTfobia, machismo, racismo e preconceitos no geral estão mais presentes do que nunca no mundo virtual. Os jogos de diversas áreas contam com sua parcela extremamente tóxica da comunidade, que se empenha sempre em fazer com que a diversão se torne um tormento. Toda essa fúria, descaso e preconceito piora nos momentos em que personagens como Ellie, Varus e Taliyah são mostrados ao público, que os utiliza como um vetor para disseminação de seus próprios sentimentos de medo, insegurança, ou seja lá o que for.

 

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