Entre 2009 e 2011, uma série de álbuns foram lançados com o intuito de homenagear os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa e reimaginar os personagens do mundo de ‘A Turma da Mônica’, desenhando-os com traços de vários artistas nacionais. A partir dessa ideia, surgiu a linha de quadrinhos Graphic MSP (Maurício de Sousa Produções), em que, partindo do mesmo princípio de dar uma nova visão da Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e seus amigos, vários quadrinistas brasileiros criaram histórias originais, mais longas, baseadas nos quadrinhos clássicos de Maurício de Sousa, com uma visão mais adulta e madura das histórias, destinando-as ao público jovem/adulto.

Após 6 anos do seu primeiro lançamento, ‘Astronauta: Magnetar’ (2012), o selo MSP inicia seus lançamentos de 2018 com uma das histórias mais cativantes, impactantes e com um forte teor social: ‘Jeremias – Pele’. Como o próprio Maurício de Sousa diz em seus habituais comentários das revistas do selo, Jeremias é o 18º título Graphic MSP, e sendo o número 18 associado à maioridade no Brasil, a história não poderia representar melhor esse significado, apesar de ser protagonizada por uma criança.

O desenho ficou a cargo do ilustrador Jefferson Costa e o roteiro com o roteirista e ilustrador Rafael Calça, ambos negros. Durante o processo de criação da história, os dois colocaram experiências vividas por eles durante a vida, dando uma maior profundidade e legitimidade à história. E desde o lançamento da sua capa e título (Pele), já se pôde ter uma ideia do que trataria a história e uma ampla margem para assuntos que seriam tratados. Como previsto, ‘Jeremias: Pele’ fala, em sua totalidade, sobre o racismo e como ele afeta não apenas o personagem principal, mas todos a sua volta.

Jeremias foi o primeiro personagem negro criado por Maurício de Sousa em ‘A Turma da Mônica’, sendo membro da Turma do Bermudão, integrada por Franjinha, Titi e Manezinho. Apesar de ser o primeiro personagem negro da Turma, Jeremias nunca havia protagonizado uma história com o tema abordado, fato que o próprio Maurício retrata e se desculpa no prefácio por nunca ter feito. No próprio selo Graphic MSP, ainda não havia uma história com esse protagonismo e que abordasse temas tão importantes e atuais.

Apesar da faixa etária a que é dedicada o selo (jovens e adultos), ‘Jeremias: Pele’ aborda a relação do seu protagonista, ainda criança, com seus amigos de escola e sua família, e por isso deve ser levado até às crianças menores, pois mostra uma realidade comum no âmbito escolar, mas que muitas vezes é despercebido por quem não tem consciência daquela situação, fazendo com certas atitudes sejam perpetuadas e não corrigidas durante seu crescimento.

A história tem seu ponto de partida durante uma atividade de classe na escola de Jeremias em que a professora escolheria profissões para os alunos representarem, tendo que ir caracterizados como elas para a atividade. Enquanto os outros alunos, brancos, eram designados a serem médicos, advogados, arquitetos, a professora escolheu para Jeremias a profissão de pedreiro, o que gera a insatisfação do garoto e chacota da turma no momento em que ele disse querer ser astronauta. É a partir daí que toda a situação da HQ se desenrola, pois é nesse momento que o jovem garoto começa a perceber e sentir um pouco do que é o racismo.

Esse contexto se torna ainda mais duro pelo fato de que, diferente do que normalmente é retratado em narrativas que tenham personagens negros como protagonistas, Jeremias possui uma família muito bem estruturada, seus pais são arquitetos, mora em um grande apartamento e é o melhor aluno da sala, tendo recebido a maior nota em uma prova. Mesmo sendo dotado de grande inteligência e carisma, o simples fato de ser negro já o destituiu de todas suas outras qualidades para os alunos da classe que o tratam com indiferença.

Ao longo das páginas, são mostradas situação vividas pelo garoto que impactam não só ele, mas todos a sua volta, principalmente sua família. No início, Jerê, como é apelidado, se mostra um garoto alegre, inocente, esperto e sonhador, que tem fascínio pelos heróis das revistas em quadrinhos e por Astronomia, ciência e tecnologia, tendo o sonho de se tronar astronauta. Porém, ao passar pelas situações que envolviam o preconceito pela cor da sua pele, se torna um garoto triste, recluso e que já não possui mais as mesmas motivações passadas, sentindo-se constantemente humilhado. Nesse ponto, Rafael Calça e Jefferson Costa abordam com maestria como funciona o racismo durante a fase escolar e suas consequências na vida das crianças vitimadas. São pequenos acontecimentos e comentários que parecem inofensivos, e muitas vezes desvalorizados pelos professores, mas que têm um impacto enorme àqueles que são o motivo dos comentários. Por exemplo, no momento em que se associa uma criança negra a um animal, ela se sente humilhada e destituída de sua natureza humana e infantil. Um dos principais comentários preconceituosos e que passam despercebidos na escola são com relação ao cabelo de crianças negras, com cabelo crespo, a pele escura, geralmente associados a uma má qualidade, duro, “palha de aço”, etc. Isso faz com que essas crianças não queiram possuir tais características, visando a aparência considerada bonita e padrão, com cabelos longos e lisos.  Situações como essa fazem com que mudem seus hábitos e modos de agir, assim como Jeremias.

No entanto, mesmo passando por essas situações e certas vezes negando quem realmente é, Jeremias tenta demonstrar força e se manter de cabeça erguida, lidando com as agressões sofridas de frente, como acontece em uma cena de briga na escola. Isso interfere diretamente em outra questão abordada na história: a relação dos pais das crianças com o racismo e a dificuldade de mostrar aos filhos que esse mundo onde as pessoas são discriminadas pela cor da sua pele realmente existe. Em uma das cenas mais emocionantes da HQ, os pais buscam explicar a Jerê como e por que isso acontece, e é notória a demonstração de dificuldade em abordar esse assunto.

”Porque você é negro, Jeremias! Se você for briguento, não vão dizer que você foi provocado, vão dizer que é porque você é negro! Se não entender algo, se disser alguma coisa errada, vão dizer que é porque você é negro! É assim que as coisas são! Você vai ter que ser duas vezes mais paciente, duas vezes mais esperto! Se não for duas vezes melhor, nunca vai ser tratado como igual! Vai ter que endurecer, filho! Criar uma casca dura, entendeu? ”

Quem lê a história, principalmente quem é negro, sente o peso da história e se emociona com as passagens de agressões, sofrimentos e superações de Jeremias. Mesmo que você não se sinta representado pelo que a narrativa traz, é importante que pare um pouco e reflita, lembrando que, mesmo sendo uma narrativa ficcional, é inteiramente baseada nas vivências da vida real, que são protagonizadas todo os dias em todos os lugares. Do mesmo modo que filmes como Pantera Negra induzem ao debate em sociedade de assuntos tão relevantes como esse, Jeremias deve ser levado a todos os âmbitos, seja escolar, familiar, institucional, para que haja uma conscientização geral.

Mesmo a HQ tendo seu ponto central no racismo, ‘Jeremias: Pele’ se trata de como pessoas tão jovens precisam amadurecer rapidamente para enfrentar essas questões diariamente, através de uma história de diversidade, preconceito e lutas diárias para mostrar ao mundo que as diferenças devem ser respeitadas e que existe discriminação até nos mais jovens, mas que, da forma certa, isso pode e deve ser mudado.

“Meu pai me disse pra ser duas vezes melhor, mas isso não é justo. Porque eu preciso ser duas vezes melhor do que ontem, e não duas vezes melhor que vocês. ”

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