O selo Vertigo, propriedade da DC Comics, é uma das maiores invenções na indústria dos quadrinhos (se não a maior) e desde o seu surgimento, em 1993, fomos presenteados com dezenas de títulos memoráveis e outros de qualidade duvidosa, mas sempre trazendo obras que fogem do lugar comum dos quadrinhos mainstream americanos, popularmente chamados de “quadrinhos super-heroicos”. O título que iremos abordar nesse texto se enquadra perfeitamente na categoria dos “memoráveis”, seja por sua narrativa cheia de mistério e que nos leva a pensar no significado real de algumas passagens do texto ou pela sua arte fora do convencional, potencializada por um trabalho de colorização que a deixa ainda mais fascinante e obscura.

‘Enigma’, lançada em 8 edições em 1993, foi um dos primeiros lançamentos do selo criado por Karen Berger. O roteiro é de Peter Milligan (Shade, O Homem Mutável) e a arte de Duncan Fegredo. Completando o trio, temos as cores por conta de Sherilyn Van Valkenburgh, em um trabalho sensacional.

Tentei ler ‘Enigma’ anos atrás, sem sucesso. Não conseguia encontrar as edições físicas (publicação incompleta) e quando tive a ideia de recorrer aos scans, surgiu a infelicidade de ter o notebook roubado, poucos dias depois de baixar o material. Desiludido, deixei de lado essa leitura e fui em busca de outras, até que recentemente surgiu a oportunidade de ler a história completa novamente por scan (ame ou odeie, ajuda em certos momentos). Já está mais do que na hora de um relançamento decente aqui no Brasil não é mesmo? Com certeza não sou o único esperando por isso ansiosamente.

Minha primeira impressão ao finalizar a leitura foi de que havia lido algo de vida longa, sem chances de soar datado com o passar dos anos. Por que digo isso? A história retrata muitos temas atuais, como sexualidade, mas outro assunto em especial me chamou bastante atenção: a relação do fã/ídolo.

Na trama, o protagonista Michael Smith é apresentado como um rapaz comum e fã de histórias em quadrinhos durante a sua infância, algo normal em boa parte do nosso mundo real, ainda mais na terra do Tio Sam. Seu personagem favorito? O Enigma. Após ser atacado pela Cabeça, Michael é salvo por uma figura mascarada porém acaba em estado de coma por algum tempo, voltando milagrosamente (ou não) à vida. A partir desse momento sua vida ganha novos rumos e o perturbado jovem começará a questionar o que é ou não real, passando por situações estranhas e presenciando o surgimento de outros vilões bizarros, como a Verdade, a Liga Interior e a Garota-Envelope. Pra deixar tudo ainda mais confuso, ele descobre que o seu salvador se chama Enigma, assim como seu ídolo dos quadrinhos, inclusive no visual. Teria Michael enlouquecido? Todas essas aparições seriam fruto do coma de onde poderia nunca ter acordado, ao contrário do que vemos no decorrer da história?

A aparição dos vilões e consequentemente do Enigma causa um alvoroço na população e Michael não é o único afetado diretamente por isso. O criador do herói, Titus Bird, também sofre as consequências das aparições repentinas de suas criações. Juntos, Michael e Titus tentam encontrar algum sentido em meio a toda a insanidade que os cerca, materializada nos fãs enlouquecidos que começam a surgir por todo o lado, afirmando que a criação do autor seria uma espécie de salvador. Esse é o ponto onde eu queria chegar.

Nos últimos anos alguns fãs de personagens da Cultura Pop, mais especificamente DC e Marvel, tem adotado uma postura semelhante aos fanáticos pelo Enigma. O que parecia um entretenimento sadio sofreu uma mudança drástica para algo mais próximo do fanatismo mesmo, onde ter uma opinião contrária à sua é motivo de ofensas pesadas ou até mesmo algo pior, como ataques a familiares via redes sociais. Pra deixar ainda mais tosca a situação, os fanáticos em questão organizam mutirões para, pasmem, avaliar negativamente determinado filme, na esperança de que uma má avaliação faça os estúdios, que pouco se importam com isso, mudem de opinião e abortem seus projetos. Exemplos desse tipo de conduta são facílimos de encontrar no Twitter e principalmente Facebook, hoje uma terra de ninguém. Será que Titus Bird conseguiria viver em paz no nosso mundo (ir)real? Suas criações seriam aclamadas ou massacradas? E Michael, o fã de quadrinhos? Como lidaria com a descoberta de que o seu ídolo de infância não era bem o que ele esperava? Michael seria um fanboy tão chato quanto aqueles que estão espalhados por aí, atrás da segurança dos seus monitores e smartphones?

O roteiro de Milligan explora muitos desses questionamentos e acho que a intenção do autor ao escrever foi justamente essa: dar uma alfinetada nos leitores e, atualizando para nossos tempos, também nos fãs de séries e filmes. Em alguns casos é dada uma importância exagerada a algo que funciona como uma válvula de escape para os problemas do cotidiano, ainda que traga à tona assuntos que merecem ser discutidos.

‘Enigma’ é uma obra que merece ser lida várias e várias vezes, pois sempre haverá uma nova descoberta na narrativa. É um dos melhores trabalhos do Milligan que eu já tive a oportunidade de ler e conta com todos os elementos que ajudaram a consagrar o selo Vertigo. Não quis dar spoilers para não atrapalhar a experiência de quem ainda vai procurar o quadrinho para ler e assim tirar suas próprias conclusões. Recomendo muito!

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