Rom Freire é um daqueles caras com boas histórias para contar. O maranhense nascido na cidade de Santa Inês é um artista (e roteirista) com trabalhos publicados a nível nacional e internacional, além de ser um grande fã do gênero terror dentro da nona arte. Parceiro, costuma comparecer nos encontros de colecionadores de quadrinhos e trocar ideias com o pessoal, sempre bastante solícito e agora temos a oportunidade de falar um pouco mais com Rom sobre seus projetos pessoais, cinema super-heróico e quadrinhos nacionais e internacionais, em entrevista concedida a Henrique Silveira e André Nascimento.

 

Houve evolução no mercado de quadrinhos nacionais?

Sim. Tanto de qualidade artística quanto editorial. Hoje as revistas saem muito mais caprichadas, em capa dura e papel bom. O único porém, é que isso termina por encarecer o exemplar, o que reduz a venda. Ainda acredito que HQ deva ser uma diversão popular, com preço acessível. É bom ter edições especiais, em capa dura e papel de boa gramatura, mas se isso vai atrapalhar o crescimento do mercado, melhor fazer em capa cartonada, com um papel mais barato e de qualidade.

O que você ainda lê de quadrinhos? Como você avalia o mercado atual?

A única revista que ainda compro religiosamente em banca é Lobo Solitário, pois a Panini assumiu a responsabilidade de publicar todo o material aqui. Espero que cumpra. Não tenho mais paciência para revistas mensais, tipo Marvel ou DC. A cronologia bagunçada já não me deixa acompanhar nada, tem personagem que nem sei quem é. Tomei um susto quando vi que havia um Hulk vermelho. E todo ano tem um reboot, zeram as revistas, recomeçam tudo, mudando coisa, haja saco!!! Curto muito o gênero super-herói, mas prefiro reler os clássicos, que volta e meia saem encadernados, e também procuro coisa nova, fora de Marvel ou DC. Comprei as edições da Valiant quando saíram, as quais gostei muito, mas infelizmente foram canceladas, como sempre acontece aqui. Meu inglês é péssimo, então não posso comprar as edições gringas, e acho cansativo ler em scans. Não conheço bem os meandros do mundo editorial, mas sei que isso acontece devido as baixas vendas dos títulos. A leitura no Brasil não é “gênero de primeira necessidade” para a maioria das pessoas, infelizmente, já que muitos dispõem de pouco para a própria subsistência. E o que falei sobre os altos preços das edições especiais, somada a bagunça de cronologia, afasta bastante o leitor.

Quais são as suas principais influências?

São vários, mas vou citar só alguns. Nacionais: Gian Danton, Mozart Couto, Flávio Colin, Watson Portela, Osvaldo Sequetim. Internacionais: John Buscema, Carlos Pacheco, Jim Starlin, Bernie Wrightson, Mike Mignola, Alan Moore, Neil Gaiman. Como podem ver, citei tanto desenhistas quanto roteiristas, já que também escrevo roteiros.

Dreadlocks

 

Você mudaria alguma decisão que tomou durante sua trajetória como artista?

Sim. Durante a década de 90 passei um ano inteiro sem chegar perto dos desenhos. Durante o dia trabalhava em uma agência de publicidade, e a noite assistia filmes ou lia HQs. Não tinha motivação para sentar e desenhar. Isso atrasou bastante minha evolução nos traços e a consequente entrada no mercado norte-americano. Se pudesse voltar no tempo, não repetiria tal erro.

Qual sua opinião sobre os filmes baseados em HQs? O modelo terá vida longa ou tem prazo de validade?

Eu gosto muito. Não sou muito chato quando o assunto é filme. Procuro me divertir, e não ficar achando furo no roteiro, na fotografia, na maquiagem… Claro que percebo quando algo está errado, mas não deixo isso estragar minha diversão. Vejo gente por aí que desiste de assistir determinado filme só porque leu uma crítica negativa no Rotten Tomatoes, por exemplo. Desculpa quem age assim, mas acho isso uma total falta de senso crítico! Não deixo ninguém decidir por mim se devo ou não assistir tal filme, ou ler tal revista ou livro. Quanto aos filmes baseados em HQs, não é nenhuma novidade, isso já vem de longe. Por exemplo, a série televisiva do Hulk é de 1978 e ‘Howard, o Pato’ é de 1986, além de um sem número de outros filmes e séries, baseados em HQs, e que fizeram (ou não) sucesso na TV e no cinema. O que não falta são bons roteiros e personagens que podem e devem ser adaptados para as telas. E o mais legal é que isso chegou ao nosso país, com a adaptação para o cinema do personagem da HQ ‘O Doutrinador’, de Luciano Cunha. Que venham muitos mais!!!

Fausto

 

Como foi trabalhar em ‘Fausto’? 

Foi estimulante, tanto por se tratar de um clássico da literatura mundial, quanto pelo roteiro bem adaptado do Leonardo Santana. Extrapolamos um pouco o prazo de entrega devido aos outros trabalhos que eu tinha de fazer na época para as editoras norte americanas, mas o pessoal da Editora Peirópolis (que publicou o álbum) soube entender nossa situação e não nos deu nenhuma bronca por isso. Além do mais, era muito legal ir recebendo as páginas coloridas pelo Dinei Ribeiro, e ver o quanto as cores dão mais vida e luz aos personagens. E para nossa eterna alegria e satisfação, o álbum recebeu ano passado o Selo Seleção Cátedra 10, da Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio. Pra quem não sabe, esse selo indica obras com valor literário, plástico e editorial, atentando, sobretudo, à qualidade artística do diálogo texto/imagem, tornando a obra em questão um artefato original indispensável para arte-educação. Para quem teve avó, mãe e tia professores, saber disso me deu uma satisfação gigantesca.

Você teve a oportunidade de trabalhar no mercado internacional. Comente sobre essa experiência e quais lições tirou desse momento.

Ainda hoje tenho essa satisfação, já que trabalho unicamente com HQs, tanto para os EUA, quanto para o Brasil. As HQs são minha única fonte de renda. O mercado lá fora é bem mais amplo e profissional. Pode-se achar uma pequena editora de quadrinhos em cada esquina. Então sempre tem trabalho a espera de um bom artista. Sem falar que os valores pagos por página são muito atrativos. O mínimo que você consegue no pagerate é U$ 50 (mais ou menos R$ 150), e se multiplicar isso por 22 páginas mensais, dá pra chegar a uma ótima renda. Como em todo mercado profissional, há percalços, claro. Mas se o artista for bom e prolífico, ele pode se dar muito bem. Já passei alguns apertos, por falta de trabalho. Mas quem trabalha por produção, sabe que isso pode vir a acontecer. Tem de estar preparado para as pedras no caminho.

Quais os seus próximos projetos? 

Ainda trabalhando em meu álbum ‘ABAITÉ’ e novas HQs do ‘Grimorium’. Também estou desenhando uma HQ de 40 páginas do personagem ‘Lorde Kramus’, de Gil Mendes, que sairá em uma edição especial colorida ainda esse ano, e o projeto ”HERÓIS SOMBRIOS’, uma parceria que fiz com Lancelott Martins, Lorde Lobo e Nel Angeiras, onde o personagem de cada um protagonizará uma HQ fechada, mas com um elo de ligação entre todas.

Abaité

 

Lorde Kramus

 

Heróis Sombrios

 

Como você enxerga o trabalho do seu irmão, Ronilson Freire? 

Um dos melhores desenhistas da atualidade! E não falo isso por ser meu irmão, o cara é bom mesmo, pô!!! Um cara batalhador, que se dedica 100% as HQs, e cuja meta é chegar nas grandes editoras. Ele já trabalhou com personagens bem conhecidos, como ‘Vampirella’, ‘Doutor Who’ e ‘Besouro Verde’ (esse último com roteiros de Mark Waid). Atualmente está desenhando a adaptação para as HQs do jogo oitentista ‘Castle Wolfenstein’, para a Titan Comics.

Existe algum personagem que você sonha em trabalhar um dia?

Por gostar muito do tema sobrenatural, eu escolheria John Constantine ou o Monstro do Pântano.

Qual a sua opinião sobre o Catarse e demais opções de financiamento coletivo? Acredita que esse seja o melhor modelo para o artista independente? 

O ideal seria um mercado editorial forte, com espaço para todo mundo, como acontece nos EUA, ou como acontecia aqui mesmo no Brasil nas décadas de 70 e 80. Mas na falta disso, o Catarse é o mais ideal no momento. Nem todo mundo pode tirar grana do próprio bolso para bancar uma revista. E, ao contrário do que algumas pessoas de má fé alegam, usar financiamento coletivo não é “pedir esmola”. É, sim, uma realidade que acontece no mundo todo, inclusive no EUA. Agora mesmo estou trabalhando em um título chamado ‘Detective Grim’ que usa o site Kickstarter, para angariar fundos suficientes para lançar mensalmente as edições. O mais interessante é que, a exemplo desse título que estou desenhando, algumas campanhas são realizadas mensalmente, e dá certo!!! Geralmente o valor a ser arrecadado é baixo, o que facilita bastante o sucesso da campanha.

Detective Grim

 

O que diria para aqueles que estão iniciando a sua jornada no ramo?

Estudem, desenhem e perseverem! É a única forma!

Existe alguma situação especial em sua trajetória nos quadrinhos que pode compartilhar conosco?

Cito duas. O Selo Cátedra 10, dado ao álbum ‘Fausto’ e o lançamento da ‘Grimorium’ #1. Muito orgulho dos dois!!!

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário