Deodato Taumaturgo Borges Filho, mundialmente conhecido como Mike Deodato Jr é um dos grandes artistas brasileiros atuando no mercado americano, mais precisamente na Marvel Comics, com quem possui um contrato de exclusividade. Deodato passou por grandes títulos da Casa das Ideias como ‘Hulk’, ‘Novos Vingadores’, ‘Vingadores Sombrios’ e recentemente ‘O Velho Logan’. Nessa entrevista tivemos a oportunidade de saber um pouco mais sobre seus projetos dentro e fora da Marvel, além de conhecer um pouco mais sobre a sua rotina de trabalho e histórias de sua vida e carreira.

*Agradecimentos a Alan Silva (transcrição)

Quais são os seus projetos para 2018? Podemos esperar por mais trabalhos autorais?

Em 2018, pela Marvel, vou fazer um evento chamado ‘Infinity’s End’ no meio do ano, fora isso eu espero que eles me coloquem em Conan, em janeiro de 2019. Já me ofereci mas dependerá da minha programação na época e de eles acharem meu nome adequado (mas gostaria muito). Autoral eu estou num projeto com Jeff Lemire, com quem trabalhei em ‘Thanos’ e temos planos de terminar até o fim do ano. O que posso dizer agora é que serão 105 páginas mais ou menos e ainda não temos uma editora escolhida. Estou na metade (página 47), fazendo duas páginas por semana em meio ao meu trabalho da Marvel. Na Marvel eu faço cinco páginas por semana e tenho dito que o único jeito de fazer alguma coisa autoral é fazendo esse sacrifício a mais, porque é muito puxado e se não fizer assim eu não vou fazer nunca. Está um pouquinho puxado mas está ficando bacana.

‘Quadros’, lançado pela Editora Mino, é um trabalho bem pessoal e uma das minhas obras favoritas levando o seu nome. Como foi trabalhar em cada uma daquelas páginas e qual o sentimento ao relembrar a obra?

Foi uma outra estratégia que adotei para fazer, pois na época eu disse que nunca conseguiria tempo para um trabalho autoral. Então decidi fazer nas minhas horas vagas e sem planos de publicar, pois comecei a postar no Tumblr. Fazia cada história numa noite ou às vezes duas ou três noites depois do trabalho da Marvel. Como eu não tenho a experiência de escrever histórias longas, com muitas tramas e personagens, pois é algo que requer estudo, escrever um roteiro, não é uma coisa que vem naturalmente e você tem que ter um tempo pra isso. Minha solução foi escrever e criar coisas com que eu estava familiarizado; seriam histórias curtas, com poucos personagens, onde procurei experimentar mais na parte gráfica e enfim, é quase como um fruto da experiência que eu tive com propaganda. Eu trabalhei muito tempo em propaganda e são coisas mais criativas, pequenas e diretas. As histórias tem minha opinião sobre o mundo e não muito a visão do personagem, pois a maioria é o que eu penso de determinadas coisas, então foi legal. Comecei sem saber muito o que eu queria mas enfim, fui procurando ideias e as vezes quando estava na academia ou fazendo alguma coisa, surgia uma ideia e já anotava no papel do treino e assim foram aparecendo coisas que eu não sabia que eu tinha e gostei muito da experiência, pensando imediatamente em fazer uma continuação. Cheguei a fazer metade de uma história mas aí o trabalho na Marvel não deixou, é muito pesado, mas tá parado por enquanto. Apareceu a oportunidade desse projeto com Lemire e não pude recusar mas eu penso em voltar a fazer histórias só minhas, tenho várias na cabeça guardadas. O que eu também achei bacana de ‘Quadros’ foi o trabalho realizado pela Mino em cima dele, não apenas na parte gráfica, onde foram bem inovadores, mas na ideia de amarrar tudo com uma entrevista onde eu falava a respeito de cada história. Eu acho que criou uma espécie de conexão com quem lia, como se fosse parte da criação, como se estivesse conversando em algum lugar e eu explicando pra eles sobre cada história. Eu achei bacana, no final fiquei bem orgulhoso mesmo daquele trabalho e acabamos de traduzir tudo e vamos tentar publicar em outros países para ver o resultado.

Seu pai, Deodato Borges, é o seu grande herói. Como foi crescer ao lado de alguém com um envolvimento tão grande com a cultura? Quais as suas lembranças mais marcantes?

Painho… Bom, assim… As mais marcantes são dele fazendo desenhos pra mim quando eu era pequeno. Ele chegava em casa tarde da noite (trabalhava muito) e falávamos: “Painho, painho, faz um desenho pra gente?”, aí ele vinha e fazia um desenho com algum personagem de quadrinhos da infância dele, personagens que eu viria a conhecer depois como o Cometa, vários super-heróis da época dele dos anos 40 e 50 e íamos colorir. Mais tarde também quando começamos a trabalhar juntos. Uma outra lembrança bacana que eu tenho é de ir na banca de revistas e ele pegar um monte de revistas. Antes de dormir ele deitava na cama dele e eu ia pra minha com um monte delas e depois eu ia lá no quarto dele e trocava com ele. Essa conexão que eu tinha com meu pai, de gostarmos das mesmas coisas, de trabalhar junto, foi bem especial. É uma coisa que eu sei que nem todo mundo tem por que a maioria das histórias que a gente ouve são artistas que tem de lutar contra a família pra poder fazer quadrinhos. No meu caso não, ele foi um aliado, um parceiro.

 

 

Você trabalha em casa, no seu estúdio. A razão para isso é ter mais tempo para a família. Como a proximidade da família influencia na sua rotina de trabalho?

(Mostra o estúdio) O estúdio tem uma parte todinha que é só de minha filha, Juju. Tem a casinha dela ali atrás do Thanos, então na verdade é mais dela do que meu (risos). É ótimo, estou trabalhando e daqui a pouco ela vem e diz: “papai papai você é um aluno da minha escola”, aí fica dando aula e tal, o tempo todo vem e me puxa pra alguma coisa mas não atrapalha, é um negócio natural. É bom, ajuda minha circulação, me faz feliz estar perto e poder curtir a minha filha nessa idade, passa tão rápido, é bom demais. Eu me sinto especial, me sinto privilegiado por poder passar esse tempo com minha filha. Com a minha primeira filha que hoje tem 27 anos eu também trabalhava em casa mas só que era muito puxado nos anos 90, eu trabalhava demais e embora estivesse em casa eu não tinha tanto contato com ela. Hoje mais velho eu aprendi a balancear o trabalho com minha filha e minha saúde então tudo isso reflete na minha arte também. Eu estando feliz, relaxado e em harmonia com tudo isso reflete no meu trabalho e eu tenho uma mente positiva. Se eu passar todo feriado só trabalhando, sem nenhuma diversão e nenhuma pausa, isso termina afetando de maneira negativa. Demorei muito pra aprender isso mas ainda bem que eu aprendi e estou podendo exercitar isso, essa liberdade de poder ter acesso a família, me divertir, cuidar da minha saúde e produzir com qualidade.

Como você avalia o mercado nacional de quadrinhos no que diz respeito a produção, distribuição e divulgação de trabalhos de artistas nacionais? Estamos próximos do ideal ou a caminhada ainda é longa?

Eu vou falar mais como espectador do que como alguém que tá o tempo todo batalhando por isso… Tenho pouca coisa publicada recentemente, eu tenho mais trabalho autoral publicado dos anos 80 do que agora mas o que eu vejo é que ainda não é o ideal mas está bem melhor, caminhando pra um mercado muito bom. A internet ajudou, novas editoras estão aparecendo, novas convenções,  estão trazendo gente de fora, tá se criando um mercado pro quadrinista nacional. Nas convenções como a FIQ e a CCXP vemos autores e artistas com uma grande quantidade de publicações nacionais de qualidade. Acho que é um momento bom mas ainda não é o ideal em termos de recompensa financeira pro autor, mas eu acho que a gente vai chegar lá. Nunca será um mercado parecido com o americano ou o europeu, mas um híbrido dos dois. Teremos nossa própria característica de mercado mas enfim, acho que a internet veio pra ajudar muito nesse quesito porque ela tirou um pouco dessa tirania de você precisar de um editor. Agora você pode se auto publicar. Você tem o Catarse, o Kickstarter, vai lá oferece seu trabalho ao público e o público decide se você deve ser publicado ou não, fora outras plataformas que você pode publicar seu trabalho, como a Amazon. Enfim… Tantas outras. Então acho que tá bom, tá favorável pra quem quer criar, quem pretende viver de quadrinhos. E acho que vai melhorar. A tendência é melhorar.

Em seu estúdio, com o amigo e artista Will Conrad (esq).

 

Quadrinhos se tornaram algo caro demais?

Faz muitos anos que não compro quadrinhos, mas acho que se tornaram caros, não demais. Isso tem a ver com a qualidade que se vê, falando especificamente do quadrinho americano. Antes, nos anos 70, quadrinho era publicado num papel com qualidade terrível, as cores eram um negócio terrível. Você tinha que desenhar de um jeito menos refinado, mais grosseiro, pra poder imprimir bem e você não perder traços. Era um produto bem descartável. Hoje em dia, não. Hoje em dia é colorido digitalmente, o papel é excelente, a impressão é excelente, o quadrinista é mais bem pago. Antes o quadrinista era pago com uma miséria. Tinha que produzir 10 vezes mais para ganhar o que a gente ganha hoje. Por consequência, não todos, mas a maioria, não produziam trabalhos de excelência, o que acontece hoje em dia. Então a gente tá pagando por uma melhora substancial de qualidade, tanto gráfica quanto criativa. Enfim, isso prejudica e afasta o público, mas hoje em dia tem as opções, como o quadrinho digital. Há outras maneiras de você ler quadrinhos sem ser necessariamente um quadrinho de papel. Eu acho que a gente tá basicamente pagando por um produto melhor, então compensa no final.

Se tivesse a missão de reviver o clássico Marvel Bullpen (criação fictícia de Stan Lee), quem gostaria que estivesse ao seu lado nessa empreitada?

Bom, a CrossGen tentou isso nos anos 90 lá na Flórida, eles criaram uma editora para trabalhar no estilo bullpen. Não deu certo mas foi uma experiência interessante. Luke Ross (Luciano Queiroz), meu amigo, trabalhou lá. Mas, se eu tivesse que escolher, ia botar só ídolo meu lá dentro: Frank Miller, Neil Gaiman, todo mundo acorrentado pois não iam estar lá por que queriam (risos). Frank Miller, Neil Gaiman, Brian Michael Bendis, todo mundo lá. Mas, na verdade, eu prefiro trabalhar sozinho, sabe? Eu não iria gostar de trabalhar com alguém “fungando” nas minhas costas. Eu gosto de conversar com meus amigos, receber visita de vez em quando, assim quando é desenhista a gente desenha… Mas eu tenho que ter muita intimidade com alguém pra relaxar e trabalhar tranquilo. Normalmente eu tenho que trabalhar sozinho e talvez conversar por Skype, ou outro método enquanto desenho. Na verdade, arte é um negócio meio solitário mesmo. Mas, se eu tivesse que escolher, escolheria os caras que eu admiro mesmo, obrigar eles a ficarem do meu lado, ver se conseguia tirar alguma coisa. Neil Adams, Frank Miller, Steranko… Esses caras tudinho.

Mike Deodato Jr e Stan Lee

 

DC e Marvel passam por momentos distintos nas adaptações dos seus personagens para filmes e séries. Qual a sua opinião sobre ambas?

Da DC, e não é porque eu não trabalhe lá, mas não gosto da maioria. Eu só gostei, tanto de série quanto de filme da DC até hoje, de ‘Mulher-Maravilha’. Não gostei de nenhum dos Batman porque aquele Batman é um robô, duro pra caramba. Batman, pra mim, é ágil. Batman seria o Pantera Negra que a Marvel fez: ágil, não aquele robô. Então, até hoje só acertaram Mulher-Maravilha. Ficou perfeito. Séries, já tentei todas, mas nenhuma tem esse nível que as séries de hoje em dia têm, esse nível de genialidade que tá superando até o cinema. São todas muito infantis, não estão num nível do que é produzido em termos de série geral hoje em dia, não só de super-heróis. A Marvel eu acho que tem muito mais tanto em série quanto em cinema. As produções são perfeitas e tratam os heróis como devem ser. Das séries, eu não gostei da primeira experiência deles, com Agents  of S.H.I.E.L.D, que até hoje não conseguir gostar, mas Demolidor é perfeito; Jessica Jones também. Justiceiro é fantástico, muito bom mesmo. Então acho que a Marvel tá acertando mais nessa transposição do quadrinho pro cinema. Acho que talvez  seja porque a DC não tem controle, pois quem faz é a Warner, enquanto a própria Marvel faz isso. Então isso ajuda o produto a sair mais parecido com o original.

Existe algum personagem que você deseja muito trabalhar mas ainda não teve a oportunidade?

Tem um bocado, eu queria fazer os clássicos. O Conan fiz algumas capas, recentemente artes promocionais, mas nunca fiz uma história do Conan, queria muito fazer. Queria muito fazer Príncipe Valente, Tarzan… São vários. Acho que Jonah Hex, Morcego Humano (DC). Mas enfim… É muita coisa que queria fazer. Algum personagem de faroeste… Eu queria fazer Tex, mas tive um arranca-rabo com o editor dele e não vou nunca mais fazer (risos). Ah, Ken Parker também. 

Você tem algum arrependimento na carreira?

Na carreira, eu penso que, no final, qualquer decisão que eu tomei acabou me levando aonde eu estou hoje, casado com a pessoa que eu amo e com minha filha. Eu fico pensando nessas coisas de voltar no tempo, mexer em alguma coisa e terminar mudando toda minha vida (risos). Eu sempre penso assim. Então, se for pra mudar alguma coisa, prefiro não. Mas, se não houvesse esse efeito dominó no futuro, eu teria tomado umas decisões diferenciadas nos anos 90, eu não teria trabalhado tanto, não teria criado meu estúdio. Enfim… Eu gostaria de ter o meu modo de pensar agora naquela época. Com certeza teria evoluído bem mais do que eu estou agora e não teria passado por experiências ruins, de ver minha arte se deteriorando sem ter consciência disso. Só vim ter consciência disso quando eu não tava mais conseguindo trabalho, então pude reavaliar. Mas tudo isso vejo como um aprendizado. Mesmo as merdas que fiz na época na minha vida serviram pra eu aprender, pra melhorar, então eu não tenho arrependimento. Sempre tirei uma lição e saí mais forte, então acho que serviu pra alguma coisa.

Qual mensagem você deixaria para os jovens que querem seguir carreira?

Bem, a primeira é fazer porque gosta, não fazer porque ‘’Ah, eu vou ficar rico e famoso!’’; não vai (risos). Enfim, tem exceções, e espero que eu seja uma exceção daqui a alguns anos (risos). Mas fazer porque gosta, porque fazendo isso você não vai ver o tempo passar, você vai ficar feliz, sua arte vai melhorar. Não desistir com os nãos que pode receber – e serão muitos. E, mesmo que você esteja bem em algum ponto, pode acontecer alguma coisa que vai te derrubar. Você tem que acreditar em você mesmo e continuar em frente e não tentar pular etapas: ‘’Ah, eu quero começar desenhando pra uma grande editora’’. Não é assim. Você tem que começar sozinho, fazendo seu quadrinho independente. Passando por isso, você vai crescer, vai se desenvolver, vai criar seu público e vai ter o feedback dos seus leitores; vai criar uma audiência pro seu trabalho. Você vai ter que fazer cada etapa do seu trabalho quando ficar profissional: vai ser letrista, colorista, vai ter que fazer cada coisa dessa e você vai aprender com isso, mesmo que termine se especializando em alguma coisa. Então é bom você passar por isso, é bom você fazer seu próprio quadrinho independente e sabendo que você vai ter que fazer um monte de histórias que vão ser ruins mas a outra vai ser melhor e não vão ser as primeiras em que vão dizer ‘’Ah, você é um gênio!’’. Então vai fazendo, vai melhorando e nunca pare de estudar. Tem sempre alguma coisa pra aprender e isso é o que faz a gente ir pra frente, o que é divertido.

Qual a sua opinião sobre o nosso Brasil hoje?

Bom, é chocante ver tanto escândalo, tanta gente que a gente achava que era honesto, que enfim, posava de bom moço… Mas, ao mesmo tempo, é bom que esteja sendo feita justiça, que exista um Moro da vida, que exista a Lava Jato, que existem juízes, policiais, gente que tá indo atrás desse bando de corrupto e botando atrás das grades. É bom ver que a justiça tá sendo feita e a gente espera que termine pegando todo mundo, mesmo os ensaboados que continuam escapulindo e encontrando brechas na lei pra escapulir. Mas a gente tá vendo que tá sendo feito alguma coisa. É decepcionante ver tanta coisa errada vindo à tona, mas é reconfortante saber que eles estão sendo pegos, presos e julgados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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