Entre 2009 e 2011, uma série de álbuns foram lançados com o intuito de homenagear os 50 anos de carreira de Maurício de Sousa e reimaginar as personagens do mundo de ‘A Turma da Mônica’, desenhando-os com traços de vários artistas nacionais. A partir dessa ideia, surgiu a linha de quadrinhos Graphic MSP (Maurício de Sousa Produções), em que, partindo do mesmo principio de dar uma nova visão da Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e seus amigos, vários quadrinistas brasileiros criaram histórias originais, mais longas, baseadas nos quadrinhos clássicos de Maurício de Sousa, com uma visão mais adulta e madura das histórias, destinando-as ao público jovem/adulto.

O Graphic MSP teve sua estreia em 2012, com uma das histórias mais profundas e cativantes do selo: ‘Astronauta: Magnetar’. Com os excelentes traços de Danilo Beyruth e as profundas e marcantes cores de Cris Peter, a narrativa, baseada no clássico personagem de Maurício de Sousa criado em 1963, segue a história de Astronauta Pereira (Sim, esse é o nome dele!), que embarca numa missão espacial para estudar um Magnetar, uma estrela de nêutrons nos confins do espaço. Porém, ao chegar ao seu destino e realizar alguns estudos, a missão dá errado e ele acaba ficando preso no local. A partir daí a história passa a abordar de forma profunda o estado de solidão do Astronauta em meio à vastidão do espaço. A lua, agora um manto negro de tão distante e o fim das vozes no seu rádio, trazem a luta pela sobrevivência física e psicológica do explorador, que agora tem que lidar com as vozes da sua própria cabeça. Nesse título vemos o personagem amargurado, sempre focado e atormentado pelas suas decisões, tão perto e ao mesmo tempo tão distante do pálido ponto azul.

Essa é uma das premissas mais interessantes da história: a paradoxal situação física e emocional de Astronauta, tendo a honra de explorar a imensidão e vastidão do espaço, em toda sua liberdade, mas ao mesmo tempo ter uma parte sua presa à Terra e se sentir tão só. O homem com a maior liberdade do mundo acaba se tornando prisioneiro dessa liberdade e passa a ser o que mais tem a solidão ligada a si. O que resta para Astro, no entanto, é chorar sem medo e lembrar do tempo em que via o mundo azul.

A vertente Existencialista da Filosofia, representada pelo seu maior expoente, Jean Paul Sartre (1905-1980), serve de base para uma visão aprofundada da situação de Astro: o homem com total liberdade para fazer as escolhas que darão rumo a sua vida. Ao escolher seguir no programa espacial da Brasa, Astronauta deixa para trás o grande amor da sua vida: Ritinha. Porém, as escolhas feitas em sua vida o atormentam e trazem a nostalgia, saudade e, de alguma forma, certo arrependimento, o que o torna alguém tão amargurado. Esses aspectos trazem à tona a humanidade das personagens e a reflexão que as histórias do selo MSP tanto prezam.

Em 2014, após dois anos do primeiro título do selo MSP e da primeira história do Astronauta, foi lançado ‘Astronauta: Singularidade’. A história dá continuidade às aventuras de Astro após ter ficado preso no espaço por um tempo e as consequências que esse confinamento trouxe a ele. Agora, decidido a voltar para o espaço mesmo após ter passado pelas situações extremas anteriormente, embarca numa missão com o objetivo de analisar um buraco negro. Apesar de a história continuar com a qualidade característica, ‘Singularidade’ destoa do primeiro título ao trazer uma trama menos profunda, com menos reflexões e que parte para o aventuroso e, de certa forma, clichê. Os acontecimentos são rápidos e o desenrolar é um tanto previsível. No entanto, continua sendo uma ótima trama e que arrebata com a qualidade do desenho e das cores aplicadas.
Já em 2016, também após dois anos do segundo título, surge ‘Astronauta: Assimetria’. Com a melhor história logo após ‘Magnetar’, ‘Assimetria’ foca justamente naquilo que é mais importante nas aventuras do Astronauta: suas indagações sobre a vida, o universo e tudo mais, acompanhadas da sua constante dor e dúvida sobre o passado e o que teria sido se escolhas diferentes tivessem sido tomadas naquela época. Após voltar para a Terra, Astro tenta se readaptar à sua antiga realidade. Ele não era mais o mesmo, mas estava em seu lugar. Porém, ao ver Ritinha, lembrar da sua antiga vida e, ao olhar para a atual, decide voltar para o espaço, do jeito que decidiu viver. Nesse título, a preocupação com o ‘’e se…’’ da vida é mostrada a ele ao se ver em uma missão para averiguar fenômenos que estão acontecendo em um dos polos de Saturno, onde se depara com instigantes situações envolvendo seu presente, passado e futuro. Nelas, Astro pode finalmente ter a ideia de como seria a sua vida se tivesse decidido ficar com Ritinha na Terra, ao invés de embarcar na missão da Brasa. Nesse momento, podemos ver o peso da liberdade que foi colocado sobre ele e as consequências das suas decisões.

Os três títulos lançados da série, como proposta do selo MSP ao trazer um olhar mais maduro para as histórias infantis de Maurício de Sousa, entregam ao leitor, de forma densa em várias partes, a espetacular visão do Universo por meio da literatura de ficção científica. Apesar das licenças poéticas que foram aplicadas para algumas situações nas aventuras de Astro, o que é necessário e uma boa escolha por conta do formato e da história contada, somos apresentados de forma clara a conhecimentos do espaço extremamente fascinantes. Ao longo das páginas conhecemos mais sobre planetas, meteoros, buracos negros, galáxias, missões espaciais, etc. É, sem sombra de dúvida, um prato cheio para os amantes da Astronomia (como esse que vos fala). Até mesmo para aqueles que não são tão íntimos de conhecimentos astronômicos acaba se tornando uma aventura divertida e instigante. É uma ótima escolha para os leitores dos primeiros volumes do Astronauta, por Maurício de Sousa, sentirem a nostalgia e reimaginar a vida de Astronauta Pereira de uma forma mais madura e complexa. Além disso, a história atiça um dos nossos maiores sonhos da infância: ser um explorador do espaço, tendo como exemplo nas páginas da HQ um astronauta brasileiro, tornando o sonho um pouco mais próximo de quem lê.

 

“Estou sempre procurando algo, mas não sei bem o quê. A maioria das pessoas imagina o Espaço como um imenso vazio. Eu vejo como ele é: um lugar repleto de descobertas para serem feitas.”

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