Roteiros de filmes com a Segunda Guerra Mundial como tema estão bem longe de acabar e cair no esquecimento, como vislumbra-se em ‘O Destino de uma Nação’ (The Darkest Hour). Após os primeiros trailers e a reação de espanto ao ver Gary Oldman irreconhecível e perfeitamente transformado no famoso primeiro-ministro britânico, podemos até ter algumas dúvidas. A incerteza se vai ao assistirmos o longa e vermos toda a entrega do ator em personificar Winston Churchill – em todos os detalhes – esta figura tão emblemática da História e, sobretudo, símbolo de resistência e bravura inglesa na grande guerra.

Baseado no livro homônimo de Anthony McCarten, o filme apresenta as primeiras semanas de Winston Churchill à frente do Reino Unido, para buscar uma solução em relação a uma dominação completa da Europa pela Alemanha Nazista: um acordo de paz ou preparar o país para uma guerra iminente. As primeiras cenas mostram o estado de preocupação da Inglaterra com a invasão alemã na França (entre outros países europeus) e proximidade com o país, além do clima de insatisfação com o primeiro ministro Neville Chamberlain (Ronald Pickup) na Câmara Comum devido ao fracasso em conter a ascensão da Alemanha nazista. Winston Churchill aparece como nome apreciado pela oposição, porém atrai a desconfiança de seu próprio partido (não sendo a primeira opção de escolha) pelo seu histórico controverso e desastroso na África, Galípoli, entre outros. No entanto, a indicação é dada e Churchill aceita de bom grado a responsabilidade e o peso da nação em seus ombros.

O filme apresenta com riqueza de detalhes, provenientes da atuação de Gary Oldman, os traços marcantes de Churchill: sua tosse, resmungos, arrogância, sua preocupação e perfeccionismo na preparação antecipada dos discursos, os sarcasmos, os hábitos de uísque no café da manhã e espumante a qualquer hora do dia, os movimentos do corpo; em suma, todas as virtudes e imperfeições do primeiro ministro foram bem representadas pelo ator. Porém, o filme não se resume apenas (ainda bem) a bela atuação de Gary Oldman, já que o filme do diretor Joe Wright (Ana Karenina) apresenta um elenco que casa perfeitamente com todos os passos do protagonista.

Kristin Scott Thomas interpreta Clementine Churchill, esposa de Winston, figura que traz estabilidade ao primeiro ministro e que o motiva a todo custo (cabe aqui ressaltar alguns diálogos bem humorados entre marido e mulher) para que ele não desista e confie nas suas decisões – ainda que bem controversas. Clementine compreende que sempre seria a segunda opção ao seu marido, pois já o havia perdido para a política. A atriz Lily James (conhecida pelo papel da garçonete no filme Baby Driver) interpreta a datilógrafa Elizabeth Layton, que organizava os discursos do primeiro-ministro onde ele estivesse, uma figura histórica na vida do primeiro-ministro, acompanhando-o em vários momentos no seu gabinete de guerra.

O filme ainda apresenta os momentos de dúvida e desconfiança do Rei George VI (interpretado por Ben Mendelsohn) em relação a Churchill, mas que durante alguns almoços agendados e privados (como era tradição com os reis e rainhas) se transforma em respeito e admiração pelo primeiro-ministro britânico. Por fim, temos o opositor (e primeira escolha para ocupar o lugar de Chamberlain) desde o início do mandato de Winston Churchill, o conde Halifax, vivido por Stephen Dillane (Game of Thrones). Para Halifax, a única alternativa para a sobrevivência da Inglaterra seria um tratado de paz com Hitler mediado por Mussolini.

‘O Destino de uma Nação’ não é um filme com muitas cenas de ação, porém não chega a ser um monólogo ou algo repetitivo. Então o que atrai no filme? O que faz o filme ser um bom concorrente ao Oscar, ainda que não tenham saído as indicações? A resposta é: Gary Oldman. O ator constrói perfeitamente a figura histórica do “buldogue inglês” com diálogos que prendem a atenção do espectador do início do filme até o final com seu discurso histórico de guerra contra Alemanha na Câmara Comum. Para o espectador, Winston Churchill está ali mais vivo do que nunca. Os diálogos e debates do protagonista fazem o público imergir nos momentos cruciais dele como primeiro-ministro, as estratégias militares a serem adotadas, encontro com líder de outra nação para buscar alternativas contra a ameaça alemã, e decisões difíceis como a Operação Dínamo em Dunquerque (vide Dunkirk de Christopher Nolan). A todo o momento Churchill buscava o encorajamento das tropas européias restantes a não retrocederem e acreditarem na vitória dos aliados (ainda que o que acontecia na Europa fosse exatamente o contrário). Em programas de rádio, o primeiro-ministro discursava com doses de nacionalismo motivando a população do Reino Unido a uma vitória certa (quando Hitler já havia dominado a Europa central completamente).

Mas será que foi assim mesmo que tudo aconteceu? Como podemos comprovar tudo isso? Segundo Anthony McCarten, o livro foi construído com informações dos Arquivos Nacionais e que também teve acesso a documentos do gabinete de guerra (no entanto, uma cena no filme não aconteceu realmente). Um dos méritos do filme é tirar Winston Churchill de um pedestal como figura imponente e o humanizar, apresentando sempre o seu semblante preocupado com a nação e o peso das suas decisões para com as possíveis conseqüências para o futuro. Winston era considerado como um político do povo, entretanto de fato é que ele era um aristocrata com requintes e privilégios para poucos. Porém, é sabido que ele gostava de ir a um encontro com o povo e saber da opinião pública.

Mais do que um filme sobre eventos da grande guerra, ‘O Destino de uma Nação’ nos convida a refletir sobre nossas virtudes e princípios que estão em jogo. Vale a pena aceitar um acordo com um tirano que não representa em nada os ideais do povo? Ainda que a tragédia fosse iminente é preferível que não corrompamos nossos ideais e cheguemos ao fim com a segurança de não ter feito a escolha errada para as gerações futuras. A perseverança e a liderança de Winston Churchill são marcas preponderantes e visam o bem de uma nação e não do próprio governante; características estas tão ausentes e necessárias em nossa pátria brasileira.

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