Os anos 90 foram uma década bem peculiar para os quadrinhos, extremos se distanciaram a ponto de se tocarem em um círculo, tal como a figura do Ouroboros, a serpente que come a própria cauda. Tivemos coisas que hoje poderíamos ver como bizarrices produtos da época, como o visual característico encontrado em HQs da Image como Youngblood e Wildcats, modelo este que também poderia ser visto nos X-Men, equipe de destaque relevante à época, para não mencionar a qualidade (muito) duvidosa das histórias no período. Ao mesmo tempo, pudemos presenciar a ascensão dos quadrinhos adultos, principalmente na seara da DC Comics, com o surgimento de selos separados como Wildstorm, Milestone e a pungente Vertigo. Hoje, a análise foca num título do selo Wildstorm, que se notabilizou por sua longa duração, inversamente proporcional à quantidade de edições lançadas. Estamos falando da, na humilde opinião deste que vos escreve, obra-prima da carreira de Warren Ellis.

Antes de publicar Planetary, Warren Ellis já havia obtido notoriedade com seu Stormwatch (que viria a se tornar Authority), ao criar heróis diferentes e pouco ortodoxos, sem uma veia realmente heroica, mas também com uma abordagem mais conceitualmente profunda do que a superficialidade da infinidade de heróis que surgiam a toque de caixa na década de 90. Ao criar Planetary, Ellis procurou trabalhar com personagens que não eram necessariamente super heróis, e sim aventureiros, mas uma forma diferente de aventureiros, eles se auto-intitulavam “Arqueólogos do Impossível”; tratava-se de uma organização focada em buscar relíquias ou observar acontecimentos insólitos do mundo, escavar a história desconhecida e oculta da humanidade, tudo isto servindo como pano de fundo para Ellis mergulhar nas mais diversas visões sobre a realidade e a sociedade por meio de referências culturais, e acredite, Planetary é cheia delas.

Acalmem-se, este texto não conterá spoilers, mas a princípio, a equipe é formada por Elijah Snow, um centenário que testemunhou boa parte da história do mundo ao longo do séc. XX e interagiu com diversas figuras tanto da história oficial quanto da história secreta do mundo; Jakita Wagner, uma espirituosa moça, com uma força descomunal e uma completa aversão ao tédio. E o Baterista, um misterioso e sarcástico tecnopata. Todos eles trabalham para a organização Planetary que, a princípio é financiada por algum bilionário que eles não fazem ideia de quem seja, mas conforme a história avança, esse ponto de partida aparentemente simples, se redobra em uma miríade de flashbacks e revelações por trás dos verdadeiros intuitos do Planetary e o que almejam aqueles que se opõem à organização que dá o nome da história.

O ponto forte, como já supracitado, são as referências, e Warren Ellis abusa delas em toda a obra. Logo no primeiro volume já temos uma história envolvendo uma ilha asiática onde encontramos referências ao Godzilla e outros monstros da ficção nipônica; também são alvo de referências e paródias as tríades de Hong Kong, Constantine, quadrinhos pulp (Flash Gordon, Aranha, Doc Savage, Tarzan e etc) e até mesmo James Bond. Nunca são referências soltas, sempre se encaixam na história e no background dos personagens de alguma forma, os personagens que referenciam os quadrinhos pulp estão presentes durante toda a saga, e têm relação direta com os personagens, bem como o arquétipo de James Bond.

E não para por aí. Ao longo dos 4 volumes que compõem a saga, temos referências ao Superman, à Mulher Maravilha, à Tropa dos Lanternas Verdes, às obras de Edgar Rice Burroughs, aos filmes de ficção científica dos anos 50, e o principal grupo que antagoniza o Planetary é uma claríssima referência ao Quarteto Fantástico. Tudo começa ,a princípio, de forma simples. Os personagens parecem superficiais, mas durante o desenvolvimento do enredo, tudo vai se aprofundando e nada é introduzido de forma jogada ou repentina, sempre encaixando os acontecimentos pregressos e futuros de forma natural.

A arte normalmente inconstante de John Cassaday dá o clima perfeito à saga, tanto quando a temática é voltada à ficção científica quanto nos momentos mais próximos do místico. Não chega a ser o auge da carreira do artista, mas com certeza é marcante de alguma forma. Claro, tudo com os típicos insights de Warren Ellis sobre a sociedade, a cultura e o futuro, sempre de uma forma convincente e vinculada à tudo que está acontecendo.

A obra também é muito lembrada por sua longa duração devido aos diversos hiatos que houveram, seja por problemas de saúde de Ellis, seja pelos trabalhos paralelos que Cassaday. Planetary iniciou em 1999 e teve seu encerramento em 2009, com 27 edições.

Planetary é, no fim das contas, uma homenagem à capacidade criativa e de desenvolver fantasia que o ser humano demonstrou nos últimos 100 anos. A magia, o mistério e a beleza que o Planetary tanto busca, pode ser considerada como o melhor que nossa literatura, cinema e arte pôde conceber no século anterior, e é precisamente, com essa visão abrangente e ao mesmo tempo cínica dos “mundos” que concebemos ao longo de décadas que Ellis concebeu Planetary. Leitura obrigatória para todo aquele que é fã de quadrinhos e cultura pop. Planetary é uma aula.

 

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