É comum que nos livros, histórias em quadrinhos e games haja momentos em que nos deparamos com aquele momento de surpresa, apreensão e tristeza (e por que não alegria, às vezes), a reviravolta que faz o maior herói ir para o lado sombrio da Força. São muitos os casos onde nossos heróis preferidos foram tomados por forças do mal ou são desmascarados depois de um tempo fazendo parte delas. Alguns exemplos clássicos são a polêmica morte do segundo Robin (Jason Todd), que foi morto a pancadas de pé de cabra pelo Coringa, e depois de certo tempo retorna à vida como o Capuz Vermelho; ou então, um caso mais recente, na saga Secret Empire (2017), Steve Rogers surpreende os leitores ao proferir “Hail Hydra”, revelando naquele momento que sempre foi membro da Hydra. Histórias como essa fazem a cabeça dos fãs e mostram que até o mais amado e poderoso herói pode se tornar um vilão.

 

Partindo desse princípio, isso é o que vem acontecendo nos últimos dias dentro da comunidade dos fãs dos quadrinhos. Stan Lee, de 95 anos, uma das maiores lendas da Marvel e um dos fundadores da editora, foi acusado de assédio sexual por enfermeiras que trabalham na casa dele, em Hollywood. Segundo informações, Lee teria apalpado e assediado as jovens. A notícia veio com grande impacto para alguns e algo não tão surpreendente para outros, mas ambos os lados se questionam sobre a veracidade dos fatos: será que o herói se tornou o vilão na vida real?

A onda de acusações de assédio ganhou força no ano passado, com destaque para as notícias de que o emblemático protagonista da premiada série House Of Cards, Kevin Spacey, teria abusado do ator de Star Trek, Anthony Rapp, quando tinha 14 anos. Logo depois, mais denúncias de abuso surgiram contra Spacey, que se manifestou sobre o caso e logo em seguida virou alvo do público e das pessoas com as quais trabalhava, dando início a uma turbulenta fase em sua carreira, sendo retirado do filme ‘Todo Dinheiro do Mundo’ (Ridley Scott, 2017) e sendo demitido da produção de House Of Cards. Diante desse caso, os fãs do ator começaram a enxergá-lo com outros olhos. O homem que deu vida ao manipulador Frank Underwood sentia agora o desprezo que sua personagem ganhava na série.

A partir daí um pensamento é frequente: até que ponto a transformação do herói em vilão é emocionante e empolgante para a história, tanto nos quadrinhos quanto na vida real?

Na saga ‘Vingadores vs X-men’ (2012), um grupo de cinco mutantes, liderados por Ciclope (Scott Summers), absorveram parte da entidade Fênix, resultando na mudança de suas personalidades. Scott, agora usando seus novos poderes para tornar o mundo um lugar melhor, começa a ficar cego pelo poder e se volta contra seus amigos, tornando-se o vilão. Seus atos eram justificáveis para os fins que almejava? O público ficava dividido sobre o que era certo ou não. A questão merecia uma análise para se pensar se ficar do lado do mutante era correto ou não.

Ao analisar a nova faceta de Stan Lee, agora um vilão para muitas pessoas (ainda sem investigação profunda para a confirmação das denúncias), é necessária cautela e não se deixar levar pela história de sucesso do maior ícone da Casa das Ideias. Só o fato de ser acusado por um crime de assédio já atrai atenção especial do público e uma atitude deve ser tomada. Casos assim, em sua maioria, são reais e mostram a realidade dos nossos tempos: um mundo que continua violento, mas onde está se perdendo o medo de denunciar as opressões vividas. A acusação contra Stan Lee é uma questão séria e que deve sim ter os devidos esclarecimentos. No entanto, se posicionar a favor dele apenas por se tratar de uma grande personalidade é um erro moral grave e que não deve ser cometido.

Na realidade em que vivemos, grupos oprimidos (LGBT+, negros, mulheres, etc) sempre são alvo de dúvidas e questionamentos acerca de suas ações. Quando escândalos envolvem grandes personalidades, essa dúvida fica ainda mais frequente. ‘’ Ela diz isso porque ele é famoso e quer chamar atenção” é um dos argumentos mais usados na defesa dos acusados. Deve-se lembrar que, mesmo que Stan Lee seja um enorme ícone dos quadrinhos, não está livre de cometer erros. Suas principais personagens refletem a condição humana, inclusive a sua própria: fortes, heroicos, mas vulneráveis de alguma forma. Ser criador de histórias fantásticas não o deixa instantaneamente livre das acusações. Defendê-lo antes de saber a verdade do acontecimento e julgar as supostas vítimas é contraditório no momento em que, sendo um leitor de quadrinhos, sabe-se das várias situações de abuso ocorridas em histórias clássicas, como a relação amorosa abusiva entre Coringa e Arlequina; o domínio de Killgrave sobre Jessica Jones; e, em um caso extremo, o estupro de Barbara Gordon pelo Coringa na clássica história escrita por Alan Moore, ‘Batman: A Piada Mortal’ (1988). Observando essas obras, vemos que as relações presentes nelas não são corretas e muito menos devem ser perpetuadas. Então, não seria irracional querer replicá-las ou defendê-las na vida real?

Portanto, antes de defender o “bom velhinho” ou tomar algum lado da história, devemos acompanhar a apuração dos fatos, relembrar de todas as situações de assédio ocorridas nas nossas histórias preferidas, colocar-se no lugar das heroínas e os familiares dela, que acompanhamos há bastante tempo, e trazer essa reflexão para a vida real. Você não iria querer estar na pele de Jim Gordon vendo sua filha sendo vítima do Coringa, certo?

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