Frank Miller e Demolidor são dois nomes eternamente ligados na história dos quadrinhos. Quando pensamos no alter ego do advogado cego Matt Murdock, logo vem à memória duas das principais histórias do personagem, ‘A Queda de Murdock’ e ‘Demolidor – O Homem Sem Medo’. Dois grandes clássicos sem sombra de dúvida, mas hoje vamos nos ater a outro momento de Miller à frente do título do herói.

‘Demolidor’, por Frank Miller & Klaus Janson.

Lançada em três volumes pela Panini, a coleção aborda a passagem da dupla pelo título do Homem Sem Medo durante os anos de 1979 a 1983, iniciando em Daredevil #158 e finalizando em Daredevil #191. Nas primeiras edições os roteiros são de Roger McKenzie, com Miller responsável pela arte. Um período extenso e repleto de momentos grandiosos, valorizando não apenas o herói cego, mas alguns de seus principais antagonistas, como o Mercenário, o Rei do Crime e, claro, Elektra. Sem dúvida alguma os três, ao lado de Foggy Nelson e Karen Page, são peças fundamentais na mitologia do vigilante da Cozinha do Inferno.

Aqui somos apresentados a um Matt Murdock que luta contra o mal em duas frentes: como o advogado do escritório Nelson & Murdock, encarando um sistema judicial não muito confiável e como o herói fantasiado que patrulha as ruas. Há momentos onde o advogado se sobrepõe ao herói e isso dá um ar mais realista no conteúdo das histórias, pois algumas situações que surgem durante as edições são bem presentes (infelizmente) no nosso cotidiano, como corrupção no sistema político e o tráfico de drogas. O relacionamento de Matt com seu pai também é explorado, mas de uma forma diferente do que já conhecíamos. Um pai violento mas ainda assim amoroso, uma combinação complexa demais.

Os vilões fantasiados são deixados de lado para dar espaço a uma trama muito mais centrada no submundo do crime e suas articulações, principalmente após o retorno de Wilson Fisk a Nova York. O planejamento e a execução de seus planos de forma progressiva é uma verdadeira aula de gestão, ainda que os seus propósitos sejam nefastos. Não é à toa que o Rei é considerado um dos principais vilões da Marvel e grande parte desse mérito pertence a Frank Miller, que o abordou de maneira magistral. Quem já teve a oportunidade de ler ‘A Queda de Murdock’ sabe do que estou falando.

Elektra, a assassina grega, foi criada pelo autor com um próposito: virar o mundo de Matt Murdock do avesso e acabou conseguindo isso, mas de uma maneira trágica e até hoje inesquecível. Mais do que um interesse amoroso do passado de Murdock, Elektra nos brindou com cenas de ação antológicas e caiu no gosto dos fãs. Caso queira conhecer mais sobre a personagem, pode buscar por ‘Elektra Assassina’ e ‘Elektra Vive’, duas ótimas histórias de uma personagem que vai muito além de sua beleza.

Sobre o Mercenário, o que pode ser dito é que o vilão foi reinventado com uma diretriz básica: destruir o Demolidor. Sua obsessão é tamanha que o leva à loucura e o resultado disso não poderia ser outro: mortes e mais mortes. O personagem cresce em importância (e insanidade) à medida que aparece e isso nos leva a dois momentos fundamentais: a histórica morte de uma personagem e a tensa brincadeira da roleta-russa no hospital, cortesia de um Demolidor sofrido e não muito racional.

A narrativa de Miller é bastante fluida e prende a atenção do leitor, que percorre todas as páginas de maneira intensa. Somos presenteados com muitos diálogos sensacionais, destacando aqui as interações entre o Demolidor e o Rei do Crime e também com o jornalista Ben Urich. A arte da dupla Miller/Janson é um show à parte, principalmente na forma como a cidade de Nova York é retratada, dando a sensação de que possui vida própria. Os quadros onde o Demolidor interage com a cidade são belíssimos e a impressão que se tem é de que ambos são uma coisa só. Uma verdadeira aula de narrativa gráfica, onde um complementa o trabalho do outro de forma magistral.

Falar sobre a passagem de Frank Miller pelo título do Demolidor é algo complicado (no bom sentido) e me esforcei o que pude para dar minhas impressões. O roteirista é de longe quem melhor trabalhou com o personagem e selecionar os principais momentos de uma fase tão longa e produtiva é difícil. O herói teve outros nomes relevantes à frente do seu título, como Mark Waid, Brian M. Bendis e Charles Soule; todos de alguma forma se aproveitaram de elementos estabelecidos por Miller para produzir seus trabalhos e isso é o reflexo da importância desse ícone dos quadrinhos mundiais na história não apenas do Demolidor, mas da própria Marvel Comics. Leitura para ser apreciada de tempos em tempos pelos fãs.

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