Sempre considerei o palhaço como o personagem mais triste do circo. Seja por conta das piadas repetidas, seja por causa da máscara que esconde seu rosto. Em Bingo: O Rei das Manhãs todos os meus preconceitos foram acentuados.

O protagonista, vivido brilhantemente por Vladimir Britcha, é um ator fracassado que ganha a oportunidade de ouro para viver o palhaço Bingo (o nosso Bozo). E ele convive com o fardo do sucesso e as perdições da vida, se afastando daqueles que realmente importam. O clichê do sucesso contra família é bem contextualizado no filme sem parecer cansativo ou repetitivo.

A nostalgia que envolve toda a história é palpável. Para os que, como eu, viveram nos anos 80/90 e foram telespectadores do Bozo é uma das melhores voltas ao passado contadas pelo cinema brasileiro.  As tentativas de ligar para falar com o palhaço, ao vivo, durante o programa eram um dos meus objetivos e o boato de que um colega de escola tinha conseguido falar com ele transformava o menino em celebridade. Eu nunca consegui e não conheço ninguém que o tenha feito, mas a esperança infantil não deixava desistir.

Bingo é uma história triste, retrato da vida de Augusto Mendes (Arlindo Barreto na vida real), mas não é um filme marcado por sua época, muitas das mensagens podem ser replicadas no momento atual. As crianças dos anos 80, hoje, estão próximas da meia-idade e podem estar vivendo o papel do palhaço se esquecendo da família apostando no trabalho.

As atuações de Britcha e dos coadjuvantes Leandra Leal (como a produtora) e Augusto Madeira (como o grande amigo do Bingo) são pontos altíssimos da obra. Tanto nas partes aceleradas e divertidas do começo do filme quanto na parte arrastada e melancólica do meio/fim.

O jovem Cauã Martins, que interpreta o filho de Augusto, um dos personagens centrais da trama, se sai muito bem no papel. Não traz um exagero sentimentalista e nos mostra na medida certa o afastamento e tristeza por conta de todo desenrolar da trama.

E é preciso ressaltar a trilha sonora, com músicas que você conhece e muitas vezes nem lembra quem canta, mas que fazem parte da sua história. Na minha parca memória, ‘Bingo’ é um dos filmes brasileiros que melhor utilizam as músicas em seu roteiro. ‘O Rei das Manhãs’ é filme pra deixar a gente orgulhoso do nosso cinema.

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