Adaptar uma obra já consagrada é uma decisão corajosa pra caralho. Ainda mais se os fãs da produção original são daqueles APEGADOS. O risco de dar merda é alto. E, infelizmente, foi exatamente o que aconteceu com o Death Note da Netflix, filme baseado no mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata.

Lançado originalmente no Japão em 2003, o mangá Death Note pode ser classificado como um thriller policial/psicológico, que traz a velha perseguição do bem contra o mal; só que de uma maneira incrivelmente única, com pitadas sobrenaturais, sem nunca tirar completamente os pés do chão.

A trama é construída em torno do brilhante estudante Light Yagami (que na Netflix virou Light Turner) e do TÃO BRILHANTE QUANTO detetive “L”. A treta começa quando Light encontra um caderno misterioso, o tal Caderno da Morte, com algumas instruções. Pra resumir: a pessoa que tiver o nome escrito nas páginas do caderno morre. Simples assim, só que NEM TANTO. Existem algumas várias regras. Por exemplo: ao escrever o nome da vítima, é preciso pensar no rosto dela; se o motivo da morte não for especificado, a pessoa morrerá de ataque cardíaco. E por ai vai.

Como você já deve ter concluído, Light senta várias canetadas no caderno, causando centenas de mortes. E é aí que surge a figura do detetive L, pra tentar desvendar os estranhos casos. A sacada aqui é que, inicialmente, Light mata apenas criminosos, então ganha a simpatia de MUITA gente. Como se não bastasse, os caras maus passam a temer a ENTIDADE (que ninguém sabe quem é), deixando de cometer crimes ou até mesmo se entregando à polícia. Light, chamado de Kira pelos admiradores, passa a se considerar uma criatura elevada, destinada a trazer Justiça ao mundo. Ou melhor: ele passa a se considerar a própria Justiça.

A caderneta da morte

E aqui entra uma das discussões mais interessantes abordadas pela obra. Quem tem o direito de decidir se uma pessoa, mesmo que tenha cometido crimes terríveis, deve viver ou morrer? O excêntrico e magricela detetive L é um dos que consideram que ninguém deve ter tamanho e irrestrito poder, e que Kira na verdade é um perigo – que de fato é. Quando se sente ameaçado pelo detetive, Kira passa a assassinar inocentes. E aí a perseguição, que é muito mais intelectual do que física, fica ainda mais sensacional.

Transpor todas as CAMADAS de personagens tão complexos quanto o estudante que acaba se tornando um serial killer, e o brilhante e excêntrico detetive que o persegue, é um troço complicado em um filme de 1h40min. Então já era algo meio óbvio que não teríamos tanta fidelidade na adaptação da Netflix. E é sempre bom lembrar: adaptação não é, e nem procura ser, igual à obra original (esqueça Watchmen). Adaptações são feitas pra públicos diferentes e, principalmente, devem funcionar de forma independente. Acontece que, mesmo com tudo isso posto, o Death Note da Netflix não consegue ser um bom filme. É, no máximo, e com muita boa vontade, assistível.

O filme, mesmo com essa premissa incrível, não tem profundidade; os personagens são rasos, suas motivações não convencem, e é difícil criar empatia por eles, mesmo no caso do detetive L, que foi interpretado de forma competente pelo ator Keith Stanfield, com todos aqueles trejeitos. Nem mesmo Ryuk, vivido por William Dafoe, o duende verde, consegue cativar de fato. Culpa do roteiro mal escrito e da direção questionável.

William DaFUCK Mito

A inteligência muito acima da média do estudante Light Yagami (Nat Wolff), que é um dos pontos-chave da trama, foi abordada de uma forma meio cagada, a ponto de esquecermos dela. O Light da Netflix é um adolescente normal, que sofre bullying e não tem jeito com garotas. O que, aparentemente, foi uma tentativa de criar uma identificação com o espectador. No produto final, temos um detetive inteligente perseguindo um estudante bundão que tá matando geral com seu caderninho de páginas amareladas. Não funcionou. Virou um filme adolescente. E aqui a palavra adolescente tem, sim, uma intenção PEJORATIVA.

Se houve uma escolha criativa que curti nesse filme foi a mudança na personalidade da Misa, que na Netflix virou Mia (Margaret Qualley). Definitivamente curti o fato de que ela, ao decorrer do filme, passa a desejar o caderno pra si, a ponto de também cometer assassinatos. A ideia foi boa, mas também não foi apresentada de uma forma ideal. Uma pena.

O filme da Netflix como um todo se desenvolve de modo muito fácil e previsível. Mesmo a parte final, que claramente foi construída com a intenção de surpreender, não causa impacto. E não surpreende.

No fim das contas, o Death Note da Netflix pode servir pra criar o interesse em conhecer a obra original. Quem não conhece, e viu o filme, deve ter percebido que TEM COISA BOA ALI. E nem é preciso ir longe. Na própria Netflix existe outra adaptação do mangá Death Note, e essa de respeito: a animação de 37 capítulos produzida pela Madhouse. Vai lá assistir que eu garanto que você vai se amarrar.

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