Revirando minha coleção do Homem-Aranha, tive a impressão de que o aracnídeo é o herói que mais sofre nas mãos dos roteiristas. Mesmo na fase clássica do herói encontramos coisas dignas de vergonha alheia. O Aranha de seis braços, o aranha-móvel e o casamento da tia May com o Dr. Octopus são belos exemplos. O leitor, claro, pode dar um desconto por ser uma época de roteiros mais inocentes. Entretanto, as fases mais atuais do Homem-Aranha também sofrem de situações muito bizarras, a Saga do Clone e o Homem-Aranha Superior ilustram esse argumento.

Mas meu intuito em citar essas historias de gosto duvidoso é falar sobre a que, em minha opinião, é a PIOR HISTÓRIA do aracnídeo: Pecados Pretéritos, escrita por J. Michael Straczynski e desenhada pelo paraibano Mike Deodato. A história começa quando Peter Parker recebe uma carta misteriosa de Gwen Stacy de tempos atrás, em que ela confessa que após a morte de seu pai (o capitão George Stacy, morto pelo Dr. Octopus em confronto com o Aranha), fugiu para a Europa (coisa que realmente aconteceu nas aventuras clássicas do aracnídeo), não só para afastar o trauma da morte de George Stacy mas para esconder o fato de que estava gravida. É por isso que odeio retcon.

Pelo menos a letrinha foi caprichada.

Enquanto Peter “esquenta a cabeça” para saber quem engravidou Gwen, aparecem dois gêmeos atacando o Homem-Aranha, alegando serem os filhos dela. Essa trama toda acaba em um twist digno dos piores filmes de M. Night Shyamalan (A Dama na Água, 2006). Mary Jane diz a Peter que sempre soube da gravidez de Gwen e confessa que o pai dos gêmeos é Norman Osborn. Além disso, os gêmeos fortalecidos pelo soro que corre nas veias do Duende Verde tiveram um crescimento acelerado, já que na cronologia do herói a morte de Gwen Stacy teria se passado há dez anos. Originalmente os gêmeos, filhos de Gwen, foram pensados para serem crias de Peter Parker (eles têm a fisionomia exata de Gwen e de Peter, ou seja, entendimento de genética zero). Mas o editor-chefe da Marvel na época, Joe Quesada achou que a ideia iria abalar o status quo do personagem, envelhecendo demais o Homem-Aranha. A trama é digna da mais descerebrada novela mexicana.

Para muitos J. Michael Straczynski é considerado um ótimo roteirista, responsável por vários roteiros em desenhos animados e filmes, além da criação da série de tevê Babylon 5 e co-criação da série Sense 8. Nos quadrinhos o escritor foi visto em fases do Thor e Superman, mas ficou famoso mesmo com o Homem-Aranha. Muitos leitores iniciaram sua jornada pelas histórias do lançador de teias sobe a tutela Straczynski, até eu, na época que saiam essas histórias (apesar de ter abandonado o Aranha lá pela saga do clone) adorava o fato de Peter Parker ser professor de colegial.

Os gêmeos borrados dando uma de perigosos.

O inicio da fase despertou interesse e trouxe nova abordagem ao Homem-Aranha, por apresentar um Peter Parker mais adulto e focado em responsabilidades que não diziam só respeito as suas aventuras como super-herói. Deu importância narrativa à tia May, tirando dela à já manjada condição de ser só uma velhinha a beira de um infarto e deu dinâmica ao casamento de Peter e Mary Jane. Fazia tempo que a faceta humana do Amigão da Vizinhança não era mostrada com tanto vigor. Aí veio o DESASTRE.

Pecados Pretéritos, além de descaracterizar TOTALMENTE uma das mais amadas personagens do Homem-Aranha, mostra uma trama que não faz nenhum sentido dentro da cronologia do aracnídeo. Uma das coisas que mais atraem o leitor é justamente a formidável continuidade novelesca da qual fazem parte os personagens do universo do Homem-Aranha. Isso sem contar que, nessa época, o velho Straczynski, Quesada e companhia, ainda iriam nos brindar com Um dia a Mais, história em que Peter Parker faz um pacto com Mefisto pela vida da tia May, apagando de vez seu casamento da cronologia.

Malhação 2004 perde FEIO pra essa novelinha aqui.

Para quem tem gosto pelo sofrimento e quer ver uma história que abusa de todos os clichês imagináveis, Pecados Pretéritos foi publicada em Amazing-Spiderman 509 até a 511 e no Brasil foi vista em Homem-Aranha (1ª série) 41 a 46, publicada pela Panini. Teve uma continuação chamada de Pecados Relembrados – A História de Sarah, em Spectacular Spider-Man 23 a 26; no Brasil, em Homem-Aranha (1ª série – Panini) 51 e 52. A saída para quem quiser esquecer essa história tosca é adotar uma cronologia pessoal em que nada disso aconteceu. É o que faço para manter a sanidade.

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